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A PORCARIA GERAL
Não sei se já aconteceu alguma vez na sua vida. Você está quase mudando de cor com vontade de ir ao banheiro, para um número 1 ou número 2. Eis que surge a “porta da esperança”. Você entra e encontra um ambiente tão imundo, que a vontade passa.
A começar pelo cheiro, o estômago já embrulha. O chão molhado, principalmente no banheiro dos homens denuncia a falta de pontaria dos usuários. A tampa, respingada. E o último a passar por ali deixou, literalmente, sua obra e não deu a descarga.
O mais irônico de tudo é que esses locais costumam ser decorados com plaquinhas instrutivas que beiram o comício do óbvio. Avisos solenes como “Dê a descarga após o uso”, “Não jogue papel no vaso” ou “Lave as mãos” precisam ser pendurados nas paredes. São regras de convivência tão básicas que deveriam vir instaladas de fábrica na mente de qualquer ser humano. Ainda assim, a placa está lá, reluzente, e o caos instalado bem debaixo dela.
O bem público, em tese, pertence a todos nós. Mas, na prática, para muita gente o conceito de “patrimônio coletivo” significa apenas “coisa de ninguém”. É uma lógica curiosa: a pessoa cuida do sofá de casa, poda a grama do jardim, tira o sapato sujo de barro e o deixa do lado de fora. Mas basta pisar na calçada e o ogro toma conta do corpo que esquece todas as boas maneiras.
É o sujeito que decide testar a precisão da própria pontaria quebrando a lâmpada do poste da esquina. É o atleta improvisado que pula a catraca do ônibus com uma agilidade que daria inveja em olimpíada, só para economizar o valor da passagem. E, claro, os clássicos arremessadores de lixo urbano, que deixam um rastro de embalagens por onde passam. Quanto aos quebradores de lâmpadas, são vândalos. O fura-catraca é estelionatário. Já o arremessador de lixo é um desqualificado, mesmo.
O urbanista Jaime Lerner costumava brincar que se reconhece um verdadeiro curitibano pelo papel de bala no bolso. Ele anda com aquele pedacinho de papel por horas, dias, resistindo bravamente, até encontrar a lixeira adequada. Pode parecer um detalhe pequeno, mas reflete algo fundamental: o respeito pela cidade como extensão do próprio lar. Se todo mundo guardasse o seu “papel de bala”, a convivência urbana seria incrivelmente mais leve.
Bastaria uma placa para tudo: “SEJA LEGAL”.
Cuidar da cidade e dos espaços comunitários não exige superpoderes, apenas um tiquinho de bom senso. Se a lâmpada acende, deixe-a iluminar. Se o ônibus tem catraca, pague a tarifa. Se o banheiro tem descarga, aperte o botão. E se o papel de bala sobrou na mão, o bolso, ou às vezes, a bolsa, está quase sempre com você, esperando pacientemente até a próxima lixeira. A cidade agradece, e o seu estômago também!







